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PROJECTO ZERO/CINCO - ALGUMAS REFLEXOES
Sandrine Milhano

O projecto Zero/Cinco do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes, com mais de uma década de existência, foi pioneiro em Portugal no estabelecimento de um programa regular de música para bebés e crianças até aos cinco anos de idade. Desde o ano lectivo 2006/2007, utiliza uma abordagem metodológica assente numa perspectiva praxial da aprendizagem pela música. Proporciona a bebés e crianças até aos cinco anos, uma participação activa, estruturada e potenciadora de experiências criativas. A música é entendida neste projecto como catalizadora do desenvolvimento cerebral, emocional, social e artístico dos indivíduos. A prática musical e a aprendizagem pela música constituem instrumentos indispensáveis para o desenvolvimento de competências chave para a vida em sociedade. Neste artigo procede-se inicialmente a uma breve caracterização do projecto Zero/Cinco e apresentam-se resultados de dados recolhidos através da observação da implementação do projecto Zero/Cinco do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes durante o ano lectivo de 2006/2007. É utilizado um tipo de observação naturalista e participante, na qual o papel do observador é simultaneamente investigador e coordenador das actividades do projecto. Pretende-se por um lado, reflectir sobre a abordagem metodológica utilizada no desenvolvimento das sessões do projecto que implicam uma participação regular, uma a duas vezes por semana de crianças dos 0 aos 5 anos e dos seus familiares, bem como no impacto dessa abordagem na comunidade docente da escola de música, particularmente nos monitores do projecto que diariamente orientam as sessões. Assim, pretende-se problematizar e reflectir sobre vários fenómenos inerentes á operacionalização de projectos desta natureza, desde as suas exigências científicas, técnicas, artísticas e pedagógicas, aos contextos de educação artística no ensino vocacional da música, ás implicações nas competências e nos perfis dos profissionais.

Alguns elementos teóricos orientadores do Projecto Zero/Cinco

Nos últimos anos, a produção científica sobre o impacto que a aprendizagem da música ocupa no desenvolvimento das sociedades contemporâneas vem-se multiplicando no contexto internacional. Investigações científicas recentes no domínio da tecnologia médica, da neurociência e da educação produziram evidências significativas do seu valor extrínseco e da importância de uma participação precoce. Particularmente relevantes os resultados obtidos através da participação em actividades musicais, particularmente orientado pela prática musical, que se quer activa, criativa e imersiva.Por outro lado, novos dados sobre o impacto que a música exerce no sucesso da vida dos cidadãos, na sua formação ao longo da vida, nas conexões entre a música e o desenvolvimento das potencialidades do cérebro, no seu bem-estar, nas questões de desempenho e sucesso escolares, da integração, do pluralismo e da inclusão sociais, no desenvolvimento da criatividade, na transferência de capacidades, atitudes e conhecimentos, têm tido um efeito notável à escala mundial em decisões sobre prioridades educativas. As oportunidades de participação em actividades musicais para crianças, jovens, adultos e seniores têm-se repetido um pouco por todo o mundo, quer através da dinamização de actividades pontuais quer através do desenvolvimento de projectos com pressupostos diversos e dirigidos a cada faixa etária.Foram já amplamente divulgados os resultados de investigações que demonstram o maior grau de plasticidade do cérebro dos bebés e das crianças pequenas (Johnson 2001; Katz & Shatz 1996) e que as oportunidades proporcionadas nestas idades facilitam um crescimento mais significativo do sistema neurológico (Gruhn 2002). A investigação tem-se centrado no impacto que ambientes e contextos ricos e variados em estímulos tem no desenvolvimento e crescimento das crianças. ‘The significance of the early environment may be associated with the period of rapid synaptic proliferation… in the first few months of life.’ Whitebread (2002).A importância da oferta de ambientes educativos fecundos e abundantes que proporcionem aos bebés e crianças interacções de qualidade e enriquecedoras, com colegas e adultos, é crucial para o seu desenvolvimento. (Whitebread  2002; Blakemore  2000; McNeil 1999)No campo da música, uma equipa de investigação coordenada por Trevarthen, realizou uma série de estudos sobre as interacções entre crianças e adultos. Um dos aspectos significantes para o presente estudo é a sugestão de que todos possuímos uma capacidade inata de coordenação rítmica (Trevarthen 1999, 2002). Esta capacidade intrínseca é activa em qualquer acto de comunicação humana, tendo sido apelidada de ‘musicalidade comunicativa’ (communicative musicality) (Malloch 1999/2000). Por outro lado, esta ideia é consentânea com o conceito de inteligências múltiplas de Gardner (1993), que designa uma delas de inteligência musical. Esta inteligência é considerada fundamental, particularmente para o desenvolvimento da linguagem falada. As pesquisas sugerem que a participação dos bebés e crianças em experiências de aprendizagem musical variadas, com ritmos, rimas, canções, movimentos em diversas tonalidades e métricas, pode ter consequências positivas, não só no desenvolvimento da linguagem como na participação futura em actividades musicais (Gordon 2000). Na ‘Teoria da aprendizagem musical para recém-nascidos e crianças em idade pré-escolar’, Gordon (2000) explica o conceito de audiação por ele cunhado, que se refere á capacidade de compreender musicalmente o que se ouve, e apresenta evidências científicas da existência de várias aptidões musicais inatas, com carácter desenvolvimental até cerca dos nove anos de idade. Salienta ainda a importância da qualidade das experiências de aprendizagem musical proporcionadas ás crianças em contextos de aprendizagem musical mais ou menos formais e estruturados em vários aspectos do desenvolvimento musical. No projecto Zero/Cinco do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes, os conceitos de aptidão musical, audiação, capacidade rítmica e de musicalidade comunicativa constituem elementos basilares e orientadores das sessões.

Ainda, investigações levadas a cabo por Trevarthen (1995), sugerem que a troca de experiências que envolvem a criação de interacções, de cumplicidades e de sensibilidade e que existem num determinado momento no tempo e em contextos particulares, é fundamental nomeadamente para o desenvolvimento cognitivo. Este investigador aplica o conceito de intersubjectividade (intersubjectivity), para explicar a base sobre a qual se constrói a capacidade para aprender (Trevarthen 1980,1995). Esta ideia, associada a um ambiente diversificado que proporcione uma troca de experiências significativas desde muito cedo, e á noção de “musicalidade comunicativa’, constituem-se também como indutores teóricos das experiências e actividades musicais, de exploração, audição, descoberta, interpretação e partilha, proporcionadas no projecto Zero/Cinco.

Os objectivos gerais do actual projecto Zero/Cinco do Orfeão de Leiria centram-se no desenvolvimento de capacidades relacionais, cognitivas, emocionais e sociais através da construção dos alicerces de vocabulário musical de audição, criação, exploração, descoberta das crianças: no desenvolvimento das capacidades de aprender a compreender, apreciar, ouvir, participar e criar música..

O projecto coloca a música como centralidade do processo de aprendizagem com o pressuposto de que a mesma é catalizadora do desenvolvimento cerebral do indivíduo no seu todo, preconizando que cada criança inicie a sua caminhada musical, o mais cedo possível. Isto é, a música alarga a compreensão de outras áreas, podendo contribuir para a aceleração de processos de aquisição de competências. Em suma, no Projecto Zero/Cinco aprende-se pela música

2. Estrutura e funcionamento do Projecto Zero/Cinco

O Projecto Zero/Cinco do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes apresenta desafios constantes a todos aqueles que nele contribuem, quer pela metodologia utilizada no desenvolvimento das sessões quer pela idade das crianças a quem se destina na medida em que o projecto preconiza que cada criança inicie o seu percurso musical, o mais cedo possível. Estruturado em 5 classes, o programa do projecto Zero /Cinco confere às crianças desde o nascimento aos 5 anos de idade e aos pais e familiares, a oportunidade de se envolverem gradualmente de forma activa, participativa e significativa em actividades artísticas, criativas e musicais estruturadas.

As crianças estão distribuídas pelas classes por idades cronológicas e/ou musical. O pai ou a mãe ou outro familiar participa com cada criança nas sessões. Duas vezes por semana para as crianças a partir dos 3 anos de idade e uma vez para as mais pequenas. As sessões têm uma duração total de 45 minutos e são geralmente divididas em 8 a 10 actividades diferentes.As sessões têm lugar em duas salas amplas e concebidas especificamente para a implementação do projecto. São salas com pouco mobiliário que dispõem de leitor de CD, colunas, uma mesa de apoio, uma cadeira e um piano. O restante material – boomwhakers diatónicos, tubos sonoros vários, parachute, ovos musicais, sinos diatónicos, jogos de sinos, xilofones, metalofones, sound shapes, timbales, e outros instrumentos de percussão, lenços, fitas, arcos, bolas grandes, balões, saco das surpresas, papel, lagartas musicais, etc. estão guardados nos armários das respectivas salas e são utilizados e introduzidos de acordo com a planificação das várias sessões.

3. Metodologias de ensino/aprendizagem



As metodologias utilizadas centram-se na vivência prática da música pelas crianças e no respeito pela diversidade das suas capacidades e idades cronológicas e musicais. As crianças experimentam e sentem bem-estar, alegria e prazer quando cantam canções, ouvem, interpretam e criam música, tocam e escutam instrumentos musicais diversos, imitam, participam e criam movimentos criativos e realizam jogos musicais em grupo. Através de uma abordagem natural da música, privilegia-se o envolvimento, desde a mais tenra idade, em actividades musicais partilhadas e participadas por pais e filhos.

Durante o projecto, implementam-se e dinamizam-se diferentes tipos de experiências de aprendizagem pela música, utilizam-se renovados recursos e materiais pedagógicos, exploram-se diferentes técnicas e abordagens na dinamização das actividades de prática, audição, descoberta, exploração, experimentação, interpretação e criação musical, para e particularmente com as crianças e os seus pais ou familiares. Esta prática gera diversificadas oportunidades e contextos para o desenvolvimento de capacidades musicais nas crianças, mas também sociais, emocionais, espacio-temporais e cognitivas. A interacção e o relacionamento proporcionado pela presença dos pais ou familiares, dos monitores, a vinda de músicos convidados, a assistência e participação activa desde logo em espectáculos, pretende alargar o potencial de modelos para a aprendizagem e para o desenvolvimento dos mais pequenos.

As sessões têm a orientação conjunta de dois monitores com perfis distintos. Alguns monitores são detentores de competências reconhecidas na interpretação de um instrumento musical e com uma prática musical activa (guitarra, piano, flauta transversal, clarinete, voz), outros possuem também formação pedagógica na área do ensino da música, outros ainda possuem formação em dança e prática de teatro. Todos são igualmente seleccionados pelas suas competências de interpretação vocal e de socialização. Nas sessões, privilegia-se sempre a audição e recurso a música cantada e tocada ao vivo e em tempo real.

 

4. Exemplos de Actividades desenvolvidas no projecto Zero/Cinco



O projecto incorpora visitas regulares de músicos profissionais nas sessões de todas as suas classes. Estas visitas tornam os espaços do projecto Zero/Cinco, em locais lúdicos e de realização pessoal onde se aprende a apreciar, fruir, interpretar e criar. Tendo sempre presente a promoção e o desenvolvimento de atitudes e comportamentos, pretende-se através destas visitas de músicos da escola de música do Orfeão de Leiria (Emol), acentuar aspectos como a ênfase da diversidade; o exemplo de modelos de disciplina que os músicos obrigatoriamente constituem; no trabalho de grupo implícito na música de conjunto; na resolução de conflitos, na negociação de soluções; no esforço e na excelência; no sentido de vocação dos músicos; na sua abordagem criativa à vida; num modelo diferente de relação aluno/professor; num compromisso de constante aperfeiçoamento; num conhecimento acerca de como dar e receber feedback; na centralização na realidade do momento presente através da participação activa na música ao vivo.

O contacto com músicos profissionais em contexto educativo tem sido discutido e sujeito a tensões várias nas investigações científicas dos últimos anos (Sharp et al 1998, Sharp and Dust 1997, Oddie and Allen1998, Robinson 1982, 1999, Clark and Taylor, 1999,and Clark, Griffiths and Taylor 2003).

Periodicamente, as actividades do projecto são inter cortadas pela assistência e participação das crianças e dos seus familiares nas festas e espectáculos musicais do projecto, e nas audições, concertos e espectáculos de música e dança proporcionados pela actividade regular das escolas de música e dança do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes.

As sessões do projecto são caracterizadas por algumas rotinas, concretamente: uma canção do ‘olá’; canção do ‘saco das surpresas’, a canção para a recolha do material utilizado; as canções “Hello Elmo” e  “Goodbye Elmo” introduzidas nos momentos de aprendizagem do inglês; e a canção do ‘Adeus’.

Periodicamente e de forma programada, as actividades do projecto incluem a participação activa das crianças e dos seus familiares nas festas e espectáculos musicais, a realização de visitas de estudo bem com a assistência a ensaios, audições, concertos e espectáculos proporcionados pela actividade regular das escolas de música e dança do Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes (Festival de Dança, Festival de Música em Leiria, Musicais “Emolas e Amigos”, etc.).

 

5. Algumas reflexões sobre a implementação do projecto Zero/Cinco

 

As reflexões seguintes incidem por um lado sobre as observações efectuadas sobre o impacto da participação regular no projecto Zero/Cinco, com um tipo de abordagem praxial do ensino da música tem nas crianças dos 0 aos 5 anos e por outro, sobre o perfil e competências necessárias aos intervenientes neste projecto. Estas reflexões baseiam-se em dados recolhidos a partir de uma observação participante não estruturada, que pretendeu proporcionar elementos que informassem e ilustrassem alguns dos impactos que projectos com as características do projecto Zero/Cinco têm nas crianças, nos seus pais e familiares e também na própria reflexão sobre o perfil necessário de professores e músicos.

Os resultados das observações indicam, por um lado que o contacto regular entre crianças muito pequenas, colegas, pais, familiares, monitores e músicos tem impacto em várias áreas do seu desenvolvimento, bem como na consciencialização da comunidade educativa sobre a importância da participação desde cedo em projectos desta natureza. Por outro lado, observam-se necessidades de formação de músicos, professores, educadores e animadores para o desenvolvimento de experiências de aprendizagem que impliquem a utilização de dinâmicas de grupo, activas, participativas e criativas.

Os resultados sobre o impacto da participação no projecto tem nas crianças dos 0 aos 5 anos são ilustrados por descrições de observações, efectuadas durante o tempo de observação e incidem sobre parâmetros especificamente musicais como o cantar, tocar e movimentar-se ao som da música, parâmetros emocionais, cognitivos e sociais.

 

5.1. Impacto da participação regular no projecto no desenvolvimento das crianças

Parâmetros musicais

A participação no projecto tem implicações no desenvolvimento de parâmetros musicais específicos nas crianças como: a capacidade de cantar e na utilização expressiva da voz, na afinação, no sentido rítmico, na vasta quantidade de repertório rítmico e tonal memorizado (rimas, jogos musicais, lengalengas, canções de roda, canções de acção, canções de rotinas, canções de substituição de palavras por gestos, canções temáticas, padrões tonais e rítmicos, ostinatos, etc. Observa-se particularmente nos bebés, com competências naturalmente ainda reduzidas de expressão oral que emitem vocalizos e sons na tónica ou na dominante das canções que ouviram. Comum é ainda constatar sua capacidade de memorização e de antecipação em algumas situações musicais, bem como os seus olhares e reacções quando essas expectativas são quebradas intencionalmente por parte dos monitores.

A capacidade de tocar e interpretar utilizando sons corporais, instrumentos musicais convencionais e não convencionais é também progressiva sendo verificável a crescente coordenação entre voz e corpo, a capacidade de seguir indicações musicais e a expressividade corporal associadas aos vários parâmetros físicos e psicológicos da música.

Por vezes, os pais ou familiares ficam admirados e surpresos com as capacidades que os seus filhos demonstram. Por exemplo, situações várias em que bebés com capacidades motoras reduzidas devido à sua idade, se deslocam propositadamente para se aproximarem dos instrumentos, para descobrirem as surpresas contidas no ‘saco das surpresas’ ou para imitarem determinados movimentos, são frequentes e reveladores do impacto das sessões no desenvolvimento das suas capacidade de coordenação.

A participação e envolvimento dos familiares nas sessões têm também implicações, não só na confiança que transmitem nos seus filhos, como no desenvolvimento das próprias capacidades musicais dos seus progenitores. Apesar dos pais se sentirem por vezes cansados e sob stress no final de um dia de trabalho, e de nem sempre se sentirem capazes de responder às exigências de uma participação mais activa que as sessões implicam, pais e/ou familiares assumem muitas vezes a sua responsabilidade pela continuação do trabalho realizado em casa. Estas atitudes e comportamentos são reveladores do entendimento e do impacto positivo que o projecto tem nas famílias das crianças nele participantes.

Parâmetros emocionais

Verifica-se que o projecto tem implicações bastante significativas particularmente no desenvolvimento de parâmetros emocionais como a reacção a mudanças musicais como a tonalidade, andamento, forma, dinâmica, timbre, etc. Uma das estratégias utilizadas para implicar de forma participativa todas as crianças nas actividades, passa por exemplo pela diversidade tonal, linguística, ritma, tímbrica, expressiva, etc. do repertório utilizado. Para além da intencionalidade educativa do próprio projecto que incentiva à diversidade musical e cultural, as mudanças musicais têm repercussões na motivação dos bebés e das crianças.

Interessante observar que mesmo crianças muito pequenas se manifestam com sorrisos, expressões vocais e corporais várias quando reconhecem canções, rimas, ritmos, movimentos, timbres que lhes agradam particularmente, como é o caso das canções da ‘cóceguinha’, do ‘crocodilo’ ou do ‘comboio’. Algumas preferências são claramente manifestadas independentemente das suas idades.

Um outro aspecto revelador do desenvolvimento emocional das crianças, ou pelo mesmo de mudanças na exteriorização das suas emoções, verifica-se no prazer, na vontade e na alegria que as crianças de todas as classes demonstram quando chegam ao Orfeão de Leiria/Conservatório de Artes. Na pressa com que sempre querem entrar na sala, por vezes na euforia pela exploração de determinados materiais, nos carinhos demonstrados aos monitores e à investigadora (coordenadora e observadora participante) na oferta de desenhos, abraços, sorrisos, segredos e confidências. Estas observações ilustram uma das preocupações do projecto que consiste na valorização da troca de experiências que envolvam interacções positivas entre as crianças, com os seus pares e com os adultos, na criação de cumplicidades e de afectos que facilitem a existência de momentos e contextos naturais e propícios ao desenvolvimento das crianças. Estas observações têm por outro lado ainda, impactos muito significativos nas apreciações que os pais fazem do projecto, para além da segurança e da confiança crescente que vão depositando nos monitores.

Parâmetros cognitivos

As observações efectuadas revelam desenvolvimentos nas crianças referentes a alguns parâmetros cognitivos como: a crescente distinção, exemplificação, comparação e identificação de timbres, alturas, andamentos; o agrupar e comparar sons, a capacidade de demonstração e a explicação de situações musicais várias, a expressão oral de comentários, etc. De notar, é a capacidade das crianças em relembrar as visitas dos músicos nas sessões do projecto (tuba, oboé, fagote, violocelo, clarinete, violino, trombone, etc). A atenção demonstrada durante a sua presença é impressionante, independentemente das idades.

Ilari (2004) investigou o efeito das preferências das crianças e a relação com a memória a longo prazo para duas peças contrastantes musicalmente. Verificaram que bebés com oito meses e meio distinguiam as duas peças quando interpretadas por uma orquestra e distinguiam os timbres do piano e da orquestra. IIri concluiu que as crianças conseguem codificar e relembrar peças musicais complexas durante pelo menos duas semanas.

Muito do repertório de canções, rimas, chants utilizado nas sessões, muitas vezes são originais e criados especificamente para fins específicos e integram conteúdos e conceitos de outras áreas do saber, como por exemplo contagens de números, formas, cores, tamanhos, a aprendizagem de vocabulário, inglês, conhecimento do mundo, etc. Os próprios materiais e instrumentos musicais do projecto são eles próprios integradores de vários saberes transversais, como é o caso dos instrumentos de pele com formas geométricas e cores diferentes, explorados não só ritmicamente, mas também pelas suas características de forma, cor e tamanho. Estes conceitos, bem como a relação entre tamanho e altura de som, são explorados com a utilização dos ‘boomwhakers’, de tubos que encolhem e esticam emitindo os respectivos sons, de tubos para movimento que realizam sons de fundamental, terceira, quinta, etc.

Através de actividades musicais essencialmente lúdicas, as crianças descobrem em grupo, com os seus pares e familiares e aprendem a relacionar muitos conceitos interdisciplinares o que incentiva a existência da transferência de capacidades cognitivas do efeito da participação desde cedo em actividades musicais, particularmente nas capacidades espacio-temporais e de pensamento lógico (Leng, Shaw, & Wright 1990, Rauscher, Shaw, Levine, Wright, Dennis & Newcombe 1997).

A este respeto são de considerar ainda estudos desenvolvidos por exemplo em 2000 por Bilhartz, Bruhn e Olsen que,num grupo de crianças entre os 4 e os 6 anos, reuniram evidencias para concluir que existe uma relação positiva entre uma participação activa em actividades musicais estruturadas e a inteligência.

Glover and Ward (1993) descrevem a relação entre a música e a matemática no contexto do 1º ciclo do ensino básico. Sugerem que essa relação assenta na forma como ‘abstract concepts like numbers become audible’, nomeadamente em actividades musicais que integrem contagens, ordenação, procura de padrões, processos mentais comuns no desenvolvimento do pensamento matemático. Existe de facto essa possibilidade, explorada no projecto Zero/Cinco. No entanto, Edelson and Johnson (2003) lembram que os educadores de infância há muito trabalham de forma interdisciplinar, sendo que a combinação entre a música e a matemática poderia ser reforçada.

Parâmetros sociais

Várias crianças participantes do projecto não frequentam creches ou ensino pré-escolar, algumas por não terem idade suficiente, outras por outras razões. O facto é que para muitas, a participação regular nas sessões do projecto revela-se como um dos poucos momentos em que interagem com outras pessoas.

As competências sociais das crianças são desenvolvidas no projecto através da participação em actividades essencialmente de grupo, nomeadamente realizadas entre crianças da mesma classe, com crianças das diferentes classes, com os seus familiares, na interpretação semi-pública de realizações musicais e no desenvolvimento de um certo sentido de audiência. Estratégias que implicam esperar pela sua vez, partilhar e trocar materiais bem como o respeito pelas regras, a disciplina, a auto-estima, a confiança são componentes regulares das sessões.

A importância de um contacto regular, bem como as capacidades interpessoais dos próprios monitores e músicos verificaram-se elementos facilitadores do estabelecimento e do crescimento de laços para as crianças, os pais e os monitores. Por outro lado, os pais e familiares demonstraram-se mais confiantes para experimentarem e se exporem musicalmente em frente dos outros. Esse ambiente de segurança e confiança torna-se determinante para a integração dos novos participantes, assim como um elemento atractivo para novas entradas no projecto.

Torna-se claro o impacto que a participação no projecto que assente na prática musical tem nas crianças em vários aspectos do seu desenvolvimento e também nas suas famílias.

5.2. Perfil dos monitores do projecto

Criar a estrutura adequada para o bom desenvolvimento das sessões revela-se crítica para o sucesso do projecto. Questões associadas ao tempo de cada actividade para cada grupo, a escolha do repertório, dos materiais, do tipo de participação dos pais e das crianças, são aspectos alvos de constantes reflexões, adaptações e reformulações.

A questão das competências e do perfil adequado a monitores em projectos desta natureza implicam profissionais detentores de diversas capacidades específicas associadas aos parâmetros do ser, do saber e do saber-fazer. A capacidade de desenvolver experiências de aprendizagem que impliquem a utilização de dinâmicas de grupo, activas, participativas, criativas, integradas, interdisciplinares e assentes na prática musical revelam-se como os desafios importantes. Ainda, a implementação de diferentes estratégias, a utilização de novos recursos e materiais pedagógicos, de um repertório alargado bem como a reflexão e aferição permanente sobre a utilização e exploração de diferentes técnicas e abordagens, a exigência de actividades de interpretação, prática e criação musical com as crianças e pais, são exigências basilares.

A estes aspectos, devem-se considerar a especificidade das idades das crianças participantes; a presença de outros adultos nas sessões; a integração de conteúdos e conceitos de outras áreas do saber; a ausência de mesas e cadeiras nas salas tradicionais numa sessão tradicional de música; as vicissitudes do trabalho em equipa desde o momento da planificação até á actuação; as exigências de modelos de interpretação e prática musical elevados; a existência de uma situação de actuação para um público exigente, verdadeiro e espontâneo; o elevado grau de concentração, atenção e capacidade de avaliação das situações de ensino/aprendizagem exigidos para a manutenção de um clima de interesse, motivação e de envolvimento de todos; o domínio de um vasto repertório musical; e por fim, a formação académica que os monitores e professores tradicionalmente possuem nem sempre valorizou o desenvolvimento da sua própria criatividade, de actividades em grupo e capacidades de composição, de exploração e de experimentação musical elemento importante na medida em que no projecto a realização de actividades que envolvem o trabalho de grupo implícito na música de conjunto com as crianças e pais difere substancialmente das habituais aulas de instrumentos nas quais apenas existe o professor e o aluno ou em que existe uma atitude mais directiva e direccionada.


6. Reflexão final

A observação da implementação do projecto Zero/Cinco proporciona oportunidades de reflexão por um lado sobre os vários efeitos da participação regular das crianças no projecto, sobre o papel que iniciativas continuadas desta natureza têm na consciencialização e na informação das famílias acerca da importância da participação desde cedo em actividades musicais e ainda na identificação de dificuldades e de necessidades de formação técnica e pedagógica de monitores, professores e músicos. A capacidade de desenvolver experiências de aprendizagem que impliquem a utilização de determinadas dinâmicas de grupo, activas, participativas, criativas e assentes na prática musical, a implementação de diferentes estratégias, a utilização de novos recursos e materiais pedagógicos, de um repertório alargado bem como a reflexão e aferição permanente sobre a utilização e exploração de diferentes técnicas e abordagens, a exigência de elevados padrões de qualidade no desenvolvimento das actividades de interpretação, prática, exploração, experimentação e criação musical com as crianças e pais, são elementos que não só tornam este projecto único e pioneiro, como se revelam os seus principais ingredientes para se constituir a âncora, a semente capital e vital num projecto de educação pela música. Ou seja, um projecto de afirmação da qualidade, da mudança e da inovação.



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Escrito por Sandrine Milhano
Desde Portugal
Fecha de publicación: Abril del 2008.
Artículo que vió la luz en la revista nº 0007 de Sinfonía Virtual


 

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